segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um ano que promete

Descobertas sobre energia escura e sobre a esquiva 'partícula de Deus' podem vir no ano que começa

(Marcelo Gleiser - Folha) Foi um ano curioso para a ciência, em particular para a física.

O Nobel foi dado aos três astrônomos que descobriram a misteriosa energia escura, responsável pela aceleração do Universo.

Físicos do acelerador de partículas LHC (Grande Colisor de Hádrons, em inglês) caçaram implacavelmente o esquivo bóson de Higgs, conhecido como a "partícula de Deus", ainda sem sucesso.

E, ainda mais estranho, cientistas do laboratório italiano de Gran Sasso afirmaram ter encontrado partículas chamadas neutrinos capazes de viajar mais rápido do que a luz, algo que, em princípio, vai contra a premissa da teoria da relatividade de Einstein.

A energia escura é um dos grandes mistérios da ciência moderna. Confesso que, quando as primeiras observações foram apresentadas em 1998, duvidei que fosse possível. Como explicar que uma espécie de fluido (não líquido, claro) permeia o Universo e dita com que velocidade ele se expande?

A ideia de que algo preenche todo o espaço é muito antiga, já popular com o éter dos gregos. A energia escura é o éter moderno. Só que, ao contrário do éter da Antiguidade, que não existe, a energia escura foi comprovada de diversas formas diferentes, que mostram que ela contribui com cerca de 73% do total de matéria e energia no Cosmos.

Em dezembro, cientistas trabalhando no Cern, centro europeu que é a casa do LHC, divulgaram os resultados de um ano de coleta de dados. O Higgs continua arredio, se bem que temos agora limites firmes para a sua massa, ao menos nas teorias mais simples que postulam a sua existência. Se existir, deverá ter uma massa entre 115 vezes e 130 vezes maior que a de um próton. Até o final de 2012, é muito provável que tenhamos uma resposta.

Existem várias possibilidades: o Higgs pode existir, como previsto, e será encontrado neste ano; pode existir, mas com uma massa bem maior do que a que o LHC pode encontrar; ou, claro, pode não existir.

De qualquer forma, seria muito estranho se nada fosse encontrado na margem de massa esperada. Caso isso ocorra, saberemos que o Modelo Padrão, a teoria-mestra da física de partículas, está mesmo incompleto. Isso apresentará tanto um desafio quanto um problema para a física de partículas: se os resultados do LHC puxarem a massa do Higgs para muito mais alto, não poderemos continuar essa busca com as tecnologias atuais.

Isso poderia levar a física de aceleradores a um hiato. Muitas teorias permaneceriam sem ser testadas. E teorias sem experimentos são cegas.

Quanto ao neutrino superveloz, a esperança é a de que cientistas no acelerador americano Fermilab possam recalibrar seus experimentos para confirmar ou refutar os resultados do laboratório de Gran Sasso.

Isso é imprescindível para que o achado ganhe credibilidade; em ciência, grandes descobertas precisam ser confirmadas em laboratórios diferentes. De minha parte, acho pouco provável que o resultado vingue.

Mesmo se vingar, a teoria da relatividade continuará válida, visto que foi confirmada inúmeras vezes (por exemplo, a cada vez que você usa o seu GPS). Teria apenas de ser emendada. Mas, para isso, temos de esperar os resultados. Pois quem decide é a Natureza.

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